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Saiam do armário! (editorial)


Gay Pride

Gay Pride

No filme “Milk” (Gus Van Sant, 2008), conta-se a história verídica de um ativista do movimento de afirmação homossexual nos Estados Unidos. Nessa película, vemos o senador Harvey Milk, interpretado por um inspirado Sean Penn, em toda a sua trajetória na luta pelos direitos civis, começando no âmbito local de São Francisco e adquirindo contornos nacionais, dentro do contexto democrático americano dos anos 70. Milk, assassinado covardemente em 1978, é considerado um dos maiores ícones do movimento gay. Milk contribuiu diretamente para a mudança de atitude social em relação aos homossexuais, que saíram dos guetos da clandestinidade para o reconhecimento e efetivação de seus direitos.

Em determinado ponto do roteiro, Harvey Milk conclui que a afirmação da identidade homossexual somente poderia avançar se todos os gays se assumissem como tal. Somente assim, aparecendo homossexuais nas famílias e empresas americanas que, finalmente, o preconceito será encarado de frente. Pessoas reais, queridas, mostram por si próprias que não há nenhuma anormalidade ou patologia envolvidas na sua opção sexual. Em suma, os coloridos devem “sair do armário“, uma atitude ética e micropolítica que ajuda à classe, fortalecendo a causa conjunta. Se num primeiro momento ocorre um estranhamento, uma hora ou outra, pela quantidade e abrangência da manifestação, a sociedade acaba por aceitá-los e acolhê-los, entendendo a sua real situação, a fim de contornar séculos de desrespeitos e violências.

Na semana passada, durante um chat no MSN que compartilhei com dois micronacionalistas italianos, Matteo e Reinhardt, este último embaixador de St.Charlie em Pasárgada, e mais um montenegrino, o Predrag (Apiya), comentamos da necessidade de um movimento similar, um movimento ‘Micronational Pride” ou de Orgulho Micronacional. O fato é que há uma porção de micronacionalistas que simplesmente têm vergonha ou receio de assumir a própria condição como micronacionalista. Preferem desconversar quando confrontados com os “gentios“. Não se sentem confortáveis em ver os nomes em sítios ou wikis. E ainda disfarçam, quando interpelados, meio sem graça, afirmando que é “apenas” um hobby “inocente“, um passatempo sem importância que eles se dão ao luxo de participar, mas que nada tem a ver com a “vida real“. Há ainda os paranóicos que acreditam que a condição de micronacionalista irá atrapalhá-los na vida profissional, nos seus carreirismos recônditos, nas suas vaidades perante amigos e amantes.

Nada mais anti-micronacional!

Já é repetitiva a reclamação de que o micronacionalismo tem dificuldades de angariar mais neófitos, de sustentar-se como atividade social e cultural, em obter fluxos estáveis imigratórios. A culpa, em parte, é dos próprios micronacionalistas. Pois o maior marketing que o mundico pode oferecer somos nós mesmos. O dia em que não tivermos mais pudor em afirmar-nos micronacionalistas, em fazer uma publicidade ostensiva, sistemática, do micronacionalismo, ele irá fortalecer-se sobremaneira.

Basta pensar no potencial do movimento micronacional. Quantos aí fora engajar-se-iam, de imediato, na prática micronacional, se ao menos soubessem que ela existe? Pensemos só no mundo lusófono: 20.000? 50.000? Cem mil? Quantos de nós não lamentamos não ter descoberto antes o mundo micronacional? Afinal, boa parte nascemos micronacionalistas, mas só depois o destino concede-nos a chance de aderir efetivamente.

Na Lusofonia, a única micronação que sistematicamente fomenta o Orgulho Micronacional é a Comunidade Livre de Pasárgada, especialmente após a revolução cultural insuperável que foi a Virada Pasárgada (2001-02). Primeiramente, foi uma micronação que aboliu os pseudônimos e aquela atitude de desengajamento, isto é, fingir a vida micronacional como uma esfera separada da “vida real“. Quem primeiro quebrou essa barreira boba, de modo contundente e como política, foram os pasárgados. Basta olhar aí fora e vamos ver vários micronacionalistas antigos, de outras micronações, que se escondem (literalmente) atrás de pseudônimos, num sentimento de covardia e fraqueza em assumir-se plenamente micronacionalista.

Orgulho de ser micronacionalista!

Orgulho de ser micronacionalista!

Essa prática medrosa é primitiva e já ultrapassada pelas novas gerações, que por assim dizer já nasceram no mundo digital (quem nasceu de 1990 pra cá) e compreendem o grau de realidade (total) implicado na Internet e nas relações humanas mediadas pelo ambiente virtual. O romano Reinhardt, de St.Charlie, tem 17 anos e diz que fala pra todo mundo de sua micronação, de suas atividades no mundico. O australiano Jason Mckerra, de Lavalon, tem 26 anos e anda na carteira com uma ID e um passaporte de sua República. “Pode gerar a curiosidade aqui e ali, e de repente achar um micronacionalista que ainda não se descobriu“, conta-nos. Eu mesmo, ao preencher currículos, escrevo sem meias-palavras: “Atividade Social/Cultural: Comunidade Livre de Pasárgada” e taco o endereço do sítio oficial ao lado.

É preciso que saiamos do armário. Afirmar claramente, pra todos à nossa volta, que somos, com orgulho, micronacionalistas. Afinal, isto aqui não é nada vergonhoso. Pelo contrário! é uma aventura intelectual e cultural de proporções fantásticas, com acontecimentos vibrantes, inteligentes, gratificantes e pessoalmente enriquecedores em múltiplos níveis. Façamos como os vanguardistas pasárgados, como os ativistas gays dos anos 70, assumamos o nosso nome, a nossa vida, sem pudor besta.

Sejamos fiéis a nós mesmos, para o bem do movimento.

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